domingo, 13 de outubro de 2013

Agora sim!


Achava que eu não conseguiria viver sem você, não é? Talvez, a "independência" fosse algo que nunca passou pela sua cabeça e, de certa forma, pela minha também. Vivíamos juntos, tão juntos que se tornou quase impossível nos dissociar um do outro. Apenas quase.

Eu sempre soube, no fundo da alma, que não era bem assim. Que eu tinha minhas próprias pernas, que me sentia bem se andasse apenas com elas, sem interferências. Não sei se posso chamar de "dependência", mas foi a palavra mais próxima que encontrei para definir nossa relação estranha.

Tudo começou aos poucos. Como sempre. De pequenos passos, fui enxergando aspectos que antes não via e que, naquele momento, não me fazia tão bem quanto antes. Continuei, pois ainda não tinha a sensatez suficiente para seguir meu próprio rumo sem a influência do seu.

Fui desonesta com minhas convicções durante muito tempo. Muito mesmo, mais do que as pessoas possam imaginar. E não foi legal, mas a aparência que eu tinha era de estar enganada, até porque todos nos olhavam e diziam, com veemência, o quanto nos dávamos bem e o quanto éramos felizes juntos. Vai ver era verdade, mas será que éramos felizes mesmo? Nem tanto, pelo menos eu não era tanto assim.

Dizem que, com muitos tijolinhos, constrói-se o muro. E essa é a melhor ideia que representa o que aconteceu entre nós. Os tijolinhos que me foram apresentados ao longo do tempo, transformados em muro, fizeram enxergar que, simplesmente, este muro era perfeitamente inadequado para minha casa. Absolutamente. E na medida em que os dias passavam, mais eu tinha certeza disso. Minha casa continuava de pé, mas algo me incomodava nela. Algo fazia com que eu não estivesse plenamente satisfeita, impedindo minha caminhada. É engraçado como uma parede pode mudar toda uma estrutura na casa, não é?

Não vou negar, nem deixar de agradecer tudo que vivemos, tudo que fizemos um pelo outro. Não sou ingrata a esse ponto. É só que agora reconheço que nossa relação não era assim tão grandiosa quanto os outros pensavam. Quanto eu mesma pensava. Quanto a você, não sei o que pensa, mas de qualquer forma espero que tenha consciência disso.

Fomos até onde deu pra ir. Fui até onde consegui ir, quando minha consciência e as tentativas de te enxergar de um modo melhor se esgotaram, porque tudo que eu via era exatamente o contrário do que deveria ver. E nada foi criado, inventado. Tudo foi sentido, tudo me foi apresentado, sem que ninguém viesse me dizer. Eu recebi diretamente e, por essa razão, tudo é fruto da minha única e exclusiva concepção. Por mais que você pense que não.

Foi quando passei a tomar as rédeas e seguir minha própria vida. É certo que fui e continuo sendo questionada por isso. As pessoas à sua volta te questionaram também e, certamente, ficou sem ter uma explicação. Aparentemente.

Olhe, eu espero, sinceramente, que tenha a consciência necessária para entender, embora eu ache que não, porque mesmo depois do dia em passamos a seguir rumos diferentes, você ainda não entendeu que as coisas mudaram e continua comportando-se, relativamente, da mesma forma que antes. E isso só me confirma o bem que fiz para mim ao me tornar uma "ovelha desgarrada".

Sabe, você não é a pior pessoa do mundo. Nem nunca foi, nem será. Só não é (mais) o tipo de pessoa que eu pensava que fosse certa pra me fazer crescer. É uma pena que os interesses da vida falem mais alto e, ultimamente, esses aspectos vinham falando muito mais alto do que qualquer outra coisa. Nossa vida, basicamente, não existia, exceto naquelas matérias referentes ao futuro e outras coisas. Chegava a ser triste ver que não conseguíamos passar disso. E, quando tive a certeza de que não conseguíamos mesmo, aí não deu mais.

Era insuportável a ideia de querer algo a mais de você e não tê-lo. E isso não precisaria ser fruto de conversas, sob pena de nos tornarmos superficiais e forçadas. Você passaria a fazer as coisas apenas para me agradar. Então, esperei e fui te observando, analisando e, simplesmente, vi que era seu jeito e que não tinha como alterá-lo, nem poderia.

A única certeza que tenho é que poderíamos ter sido mais. Você poderia se desvencilhar das insignificâncias e prestar atenção em outras partes da vida. E eu poderia ser mais "tolerante" com isso, mas fui até onde deu. Acho até que a questão não se resume a isso. É só mais um fator, dentre tantos.

A sensação que tenho é de ter tomado a decisão mais acertada de todos os tempos, no tocante aos meus relacionamentos e às pessoas que quero por perto. Isso porque, de fato, eu vinha extremamente fora de mim para estar com você e chegou o momento em que não dava mais para passar por cima das minhas convicções e conceitos para estar com alguém que já não me alegrava tanto.

Talvez me faltasse coragem, mesmo porque aos olhos dos outros éramos "inseparáveis" e me separar traria muitos questionamentos, falácias e outras coisas desagradáveis. Depois entendi que não faltava coragem. Enquanto tive paciência e tentava ver de outra maneira, continuei. Mas, depois de muito tentar, de muito passar por cima e me sentir mal, quando não cabia mais a infelicidade que estava reinando sobre mim, aí foi o momento de dar um basta. O momento de reconhecer que nem tudo era lindo, como todos imaginavam, que nem tudo me fazia bem, que você talvez não fosse a pessoa mais adequada para me fazer o bem que precisava.

Acho que é um lance de incompatibilidade isso. Somos de mundo muito diferentes e eu sentia que, muitas vezes, você não foi capaz de compreender minhas dificuldades. Lembro como hoje do dia em que lutei para te explicar que não podia, mas ainda assim insistia como se pudesse mudar a situação. Pouco importa suas razões. Eu apenas não queria questionamento, queria compreensão. E ali sim eu percebi que, como você é de um mundo absolutamente diverso do meu, nunca entenderia o que estava querendo te dizer, porque nunca passou pela situação. E existem pessoas que compreendem, mesmo sem terem passado. Mas, você não era uma delas.

Foram essas pequenas coisas que me fizeram mudar. Mudar para melhor. Mudar para buscar o melhor de mim, mesmo que ficasse sozinha. Mudar para entender que não adianta ficar do lado de alguém apenas porque o mundo nos tornou "inseparáveis" ou porque, como sempre andamos juntos, não podemos nos separar. Claro que não! Claro que é possível duas pessoas tomarem rumos diferentes depois de certo tempo juntas. Claro que é possível duas pessoas entenderem que não eram tudo aquilo que imaginavam que fossem uma para a outra. Claro que é possível seguir em frente.

Nossas escolhas não são definitivas e imutáveis. O que deve ser definitivo é o nosso desejo de ser feliz com quem nos auxilia nessa tarefa. E tudo que fiz foi isso: buscar a felicidade que não encontrava, porque esse é meu direito indiscutível. E agora eu estou, realmente, bem. Tudo está como deveria estar.





 






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