Sinto que fui convidada para dançar. E, claro, é um convite irresistível pra mim.
O salão está sempre lotado. As músicas são boas e as pessoas até possam ser, embora eu não possa afirmar isto com muita certeza.
Foi um convite inesperado e aos poucos. Não daqueles imediatos de olhar, chegar e perguntar simplesmente: "Concede-me uma dança?" Não houve nada disso.
Éramos (e talvez sejamos de fato) duas pessoas normais em um mesmo ambiente. A princípio, isso não muda e nem altera a natureza das coisas.
Não posso explicar como esse convite repercutiu em mim, mas posso afirmar, com certeza, que nunca acreditei cegamente na veracidade dele. Tenho uma postura muito cética diante de algumas coisas e esse convite está inserido nessas posturas. Mas, meu par era incrivelmente capaz de me tirar desse estado de dúvida. Bem capaz. Lutei bravamente (e continuo, pois a dança ainda teve um fim) contra minha própria razão que insistia em negar tudo aquilo, enquanto meu peito fervilhava, minhas mãos suavam e eu sorria. Em total contradição.
E sabe que essa é uma das coisas mais difíceis? Lutar contra o que se quer fazer ou acreditar, por medo de quebrar a cara, de se decepcionar. Mas, nesse caso, nessa dança, a ilusão só me trará problemas. E é algo perfeitamente "fugível". Eu posso correr enquanto ainda tenho um domínio melhor de mim mesma.
Entretanto, vocês nem imaginam o trabalho que tenho para manter tal domínio. A vontade é soltar as rédeas e me estabanar no chão, porque só existe essa possibilidade com a perda do meu auto-controle. A dança continua maravilhosa. Mas, preciso destacar alguns detalhes dela.
Às vezes, erro os passos. Sinto como se eu fosse aprendiz, mas bem sei que ele também é. E, comumente, estamos em passos desritmados. Por querer, porque eu sei a realidade. E o moço do convite? De realidade outra. Sinto que estou sintonizada numa música pela qual não oferece o ritmo, nem o passo, nem o jeito certo a ser dançada. Puramente distração, diversão e loucura.
Eu sei que é difícil manter o auto-controle e não ultrapassá-lo a ponto de não criar barreiras. Mas, não tenho outra alternativa a não ser criá-las e deixá-las bem fortes na minha frente, para que depois não possa reclamar de nada.
Sei que é uma ideia louca e que surgiu de repente, mas o convite foi de repente. E o mais engraçado é que são muitos convites, oriundos da mesma criatura dançante e, um tanto, sedutora.
Já posso dizer a vocês a quantidade de vezes em que parei a dança no meio e retornei à minha mesa, quando percebia que estava indo além do que eu me permitia ir. Aliás, sempre achei que não deveria permitir nada. Sou do tipo de garota que... ou é pra valer, ou não vale nada. Nesse caso, nada vale. Vou insistir no vácuo? No que não me oferece nada, além de decepções e retorno a um estado mental, cuja experiência tenho e sei como é? Já cresci um pouco. E já posso me preservar de coisas desse tipo. De pares desse tipo.
E o pior... Sou uma dançarina envolvida, mas que sabe perfeitamente a REAL. Por que minha cabeça não diz isso para aquele órgão no lado esquerdo do peito? E por que a parte do cérebro que processa essas coisas sentimentais NÃO SE TOCA de vez?
Aliás, sentimentos é algo que nem posso mencionar aqui. Porque, embora haja toda uma dança, sei que eles não existem, de fato. Evito, evitarei.
Estou conseguindo me adaptar a este tipo de situação, mas está sendo bem difícil distinguir. No entanto, a cada vez que repito a mim mesma que se trata de uma mera dança de salão, como outras que eu sempre gosto, com meramente um par qualquer, como outros que já dancei, a coisa se torna bem melhor. E com apoios externos, acho que fica quase uma superação pra mim.
Quer saber mesmo? A realidade e o que é certo? O salão está cheio. Sei que existem muitas pessoas. Elas apenas não me chamaram. E eu não vou deixar de enxergá-las por uma só que me parece ser nada perto do que outros podem possibilitar. Vou dançar. Trocar de par. Até, um dia, achar o certo. Aquele me convidará do melhor jeito e, principalmente, de uma maneira que me impeça de pensar, de me trancar, que me faça jogar tudo para o alto, porque sabe que valerá a pena se eu isto fizer.
Quem me faz pensar, no fundo, não tem tanto potencial pra me liberar totalmente da razão. Quem me faz trancar a gaveta, não quer verdadeiramente conhecer o que ela guarda. Quem faz por onde me fechar, sabe que não pretende abrir. E eu não vou me lamentar por isso. Vou dançar, que é o que gosto de fazer. E sei que encontrarei muitos maus pares, mas haverá de surgir aquele que me abrirá e não precisa vir com a melhor dança, com a melhor roupa ou o melhor passo. Basta vir com a verdade e com a certeza de que não se está dançando com mais uma, mas com quem sempre quis.
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