sexta-feira, 24 de maio de 2013

Incontrolável


É estranho.

Tenho um pouco de medo de mim. As palavras que saem da minha boca, normalmente, costumam me causar um arrependimento imediato. "Não devia ter falado isso" é o primeiro pensamento que surge e, em seguida, a estranha sensação de ser tola outra vez. Fool again. Não encontrei definição melhor para mim. 

Simplesmente falo o que me vem à mente. Eu costumo achar que qualquer pessoa pode ser uma amiga e daí converso como se fosse mesmo, sobre diversos assuntos e, se der muita bola, chego mesmo a desabafar sobre minhas desilusões na vida. Que grande defeito. Foi a conclusão à qual cheguei depois de pensar que fosse qualidade, mas não é não. 

Sofro com isso. Talvez, ser transparente e espontâneo demais tenha lá seus efeitos negativos. Sou movida pelo ímpeto, pelo impulso e quase sempre acabo "queimando meu filme" em boa parte das situações. Como sou profissional nisso! Não que se eu fosse diferente isso mudaria. Considerando o meu azar para as coisas, dificilmente seria diferente, apenas diminuiriam as "queimações".

Sou capaz de fazer as pessoas entenderem tudo errado ou mesmo descobrirem "na lata" o que vivo escondendo, seja por palavra, por olhar ou por qualquer outro modo. Meu Deus! Até meu silêncio me denuncia. 

Sabe que esses dias fui pega tão de surpresa com um assunto do qual me recuso a falar ou manter qualquer tipo de recordação (sei!) e, simplesmente, lutando com a última veia do meu corpo, o último neurônio do meu cérebro, o último músculo do meu ser para não corar, mas nem teve jeito. Fiquei mais vermelha que um pimentão vermelho, claro. Não é o verde, hein? Até porque se é verde não é vermelho. Seria melhor dizer tomate, só assim não gera confusão na mente das pessoas. Está vendo? Sou assim, sempre tornando as coisas mais complexas e confusas. Eu só tentei fazer uma comparação e existe sim pimentão vermelho. 

E ainda bem que existe o chão, pois já que não se pode cavar um buraco na terra e entrar lá, ao menos se pode olhar pra baixo como se tivesse cometido um crime hediondo. Na auto-vergonha, é isso que acontece.  

E, mais uma vez, confesso o meu segredo, falando sem parar. Não existe maneira melhor de me dedurar do que o rosto mais que vermelho, até mesmo roxo, a depender da situação. Quer dizer, mesmo que eu fique calada, lutando bravamente contra meu "tagarelismo-inconveniente-com-quem-não-devia", meu rosto, minha expressão e meu método totalmente desajeitado e nitidamente perturbado falam tudo e um pouco mais. É difícil ser assim. 

E o pior é que eu sou capaz de me iludir achando que ninguém sabe. Basta que toquem no assunto escondido ou do qual me recuso a discorrer e pronto. Não precisa nem ir muito longe para descobrir. Mas como o ser humano pode ser desse jeito? 

Se pelo menos as pessoas não soubessem "ler olhares", eu poderia dizer que esse é o meu grande trunfo porque, de fato, a maioria das coisas saem por eles. Ao menos aquelas que não posso falar ou não tenho coragem. Será meio filosófico o que vou dizer agora, mas é a verdade: meus olhos falam mais que minha boca. E não há nenhuma contradição com tudo que disse até aqui. Acontece apenas que as coisas mais sombrias só são ditas de outra forma e não em uma conversa pra lá de casual em que ninguém dá importância ao papo. E eu acho uma grande injustiça falar sobre assunto sério (pelo menos pra mim) e ver que a outra parte não deu valor. É melhor ficar quieta. É o que eu digo sempre. Não gosto de correr o risco da insignificância.

Resultado: o que não deve ser dito, eu digo. O que deve ser dito, eu NÃO digo. Como ajustar essa situação? Eu diria que é melhor conversar sério com meu cérebro e exigir que ele se contenha e recupere sua capacidade de selecionar o que deve ou não ser dito. 

Só tenho medo sabe de que? De me tornar uma pessoa completamente calada ou que pensa demais antes de dizer até mesmo um "oi" (existem pessoas assim) e daí posso me tornar fria ou então me sentir "menos eu". Sei que não é preciso radicalizar para consertar o que precisa de ajuste, mas no meu caso... é agora ou nunca. Vai ou racha. Tudo ou nada. Só funciona assim.

Mas é perdido qualquer tentativa. Na primeira oportunidade, basta aparecer um conhecido e aí já era. A conversa começa e, se for bem conhecido mesmo, capaz até de chegar a assuntos que eu tinha jurado não falar. Isso também aconteceu esses dias. 

De início, a situação era constrangedora, na verdade, eu não tinha muita opção acerca dele. Ficaria entre sete chaves. Guardado na minha casa junto com minhas roupas, dentro do guarda-roupa lá no fundo. Eu tinha jurado não falar sobre ele. Abafar, até porque sabia que, se falasse, algo sairia errado. Melhor não arriscar. Mas, veja só. Falei e falei até demais. Veio à tona como algo que sempre quis falar e estava esperando apenas a oportunidade. Não consegui conter. Droga!

Devo ser sincera. Eu gostaria de falar mais, mas "a timidez não deixa", como diria KLB no auge do seu romantismo ultra-meloso. É que eu tenho vergonha, primeiro, de assumir para mim mesma e, segundo, da reação das pessoas. Puts! Dá calafrios só em pensar nas inúmeras retaliações que eu receberia, porque existem muitas coisas que não deveria sentir ou pensar e acontece exatamente o contrário. É mais forte que eu. 

É, é isso mesmo. É sempre mais forte que eu. O impulso de falar em meio à uma conversa qualquer é mais forte que eu e, algumas vezes, não deveria. O fato é que ser espontâneo é algo difícil de ser em um mundo onde se exige fingimento e, por vezes, "coisas-que-os-outros-querem-de-você-mesmo-que-você-não-queira". Às vezes, parece que preciso me adequar aos padrões de relação social. Como se tivesse uma lista de "20 coisas que você pode conversar" em diferentes graus: com um amigo, conhecido ou qualquer outro.

Só digo uma coisa: é difícil ser, naturalmente, contrário a isso. Chega a parecer tolo diante dos outros. E, por isso mesmo, talvez eu continue sendo tola, por ser contrária e não conseguir ser igual. Fool Again. Tola outra vez e com prazo de tolice indeterminado. Sem problemas de validade/vencimento. Acho que veio impregnado desde o meu nascimento. E quer saber? Nunca saiu, por mais que eu tentasse e não foram poucas as tentativas. É o jeito ser tola mesmo. 





  

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