domingo, 16 de junho de 2013

A arte de ser só



É algo que ninguém quer ser ou consegue ser. É certo que o ser humano é eminentemente social, necessitando viver em comunidade para melhor se desenvolver. É, mas viver sozinho não impede a vida, embora não a torne mais feliz ou mais desenvolvida. Enfim, é a questão da natureza humana que, neste momento, estou a lutar contra. Contra minha própria natureza.

Primeiramente, não me sinto sozinha. Eu sou sozinha, entendeu? É questão de ser e não de sentir. É uma análise objetiva da situação e não meramente subjetiva. Esta a gente já sabe e todo mundo se sente só alguma vez na vida, mas não é tão simplório e banal assim. Precisamos mesmo é ver a realidade, os fatos e aí assim poderemos verificar a arte de ser só.

Viver só é, sim, uma arte. E nem todo mundo tem talento. Nem todo mundo é artista, principalmente quando o objeto da arte é a solidão. Mas, eu me propus a isso e, quer saber, não me arrependo. No universo em que vivo, se tivesse optado por companhias, certamente, teria tido muito mais problemas. 

É que o mundo no qual vivo é um tanto quanto diferente do que estou acostumada e, por isso mesmo, ser só foi a melhor opção. É certo que ninguém vive sozinho para sempre, mas aqui eles vivem em espécies de "aldeias". A aldeia da família não se mistura com a aldeia dos amigos. Bem assim, a aldeia  do namorado não se mistura com a dos amigos. Família, amigos e namorados estão em grupos distintos. A dos amigos não se mistura com a de outros amigos. E dentro dos amigos, existem os sub-grupos, que também não se misturam. E assim por diante. É tudo muito separado. Junto, mas separado. Cada âmbito da vida em seu lugar e não, não se misturam. Como água e óleo, às vezes. 

Alguns reconhecem isso, outros são mais otimistas. E eu nem sei em qual das aldeias estou inserida, mas, sem dúvida, na minha tribo só existe eu mesma. É que estou longe do meu "velho mundo" e esse "novo mundo" é, de fato, novo. 

Sabe, é preciso destacar uma diferença importante. Ser só é completamente diferente de ter com quem contar. Sempre que falo isso de ser só, muitos discordam porque confundem um com o outro. De fato, tenho com quem contar, mas há um detalhe que passa despercebido nisso: tenho com quem contar, quando precisar. QUANDO PRECISAR. E quando não precisar? É aí que entra a ideia de ser só. Ter com quem contar tem um caráter extremamente esporádico, eventual e temporário. Na necessidade, posso procurar alguém pra me ajudar e vou ter ajuda. Quando não houver razões pra isso, então, vivo no meu mundo. Comigo mesma. Sou só, embora tenha com quem contar, entende? 

E não há dúvidas disso. Na aldeia da família, não estou inserida. Na dos amigos, estou inserida em um grupo extremamente pequeno e secundário. Sim, absolutamente secundário. Esse é um fato quase que inquestionável, com base nos dados reais. O grupo dos universitários, aqui, possui um caráter supletivo, complementar, acessório. Quer dizer, vez ou outra é que eles estão na ativa e fazem algo de verdade, porque enquanto houver aldeias consideradas "mais essenciais", aqueles ficarão sempre no ramo do "quando puder". É, estou nesse ramo aí, o que apenas corrobora meu lado sozinho de ser, porque em ocasiões como férias a solidão é absoluta.  

Por favor, não leiam solidão em seu sentido melancólico ou dramático. Estou falando objetivamente, sem qualquer subjetivismo que possa dificultar nosso entendimento. 

Sabe, até ouvi dizer que, se eu encontrasse um namorado, as coisas seriam mais fáceis e melhores. Mais fáceis por que? Porque eu seria obrigada a fazer parte de uma aldeia que, realmente, vivesse comigo? E se for, é apenas desse jeito que se pode conviver por aqui? E isso é algo que me gera uma discussão muito grande. Namorar é um fato social, hoje em dia. Namora-se por conveniência. Namora-se para ter alguém pra sair. Pra ficar em casa assistindo. Pra comer na rua. Pra ir à festa. Talvez até o gostar nem seja assim tão importante. O importante é não ficar só. E, por mais que as pessoas neguem isso, nós sabemos que é assim que acontece. 

O conselho de namorar, portanto, é completamente absurdo para mim. Não namoro por conveniência,  pra superar o fato de "ser só", como se fosse impossível ou a pior coisa do mundo. Poupe-me do discurso vitimista de "ela vive sozinha e precisa de alguém". É patético, antes de ser ridículo!

O fato é que sou só e não é que isso seja totalmente uma escolha. Lógico que eu adoraria vivenciar essa realidade um pouco melhor, mas não há com quem fazer isso. Também não há como exigir que façam isso comigo. Quando se está inserido na sua própria realidade, no seu mundo, com todas as suas pessoas é difícil perceber outras, ainda mais quando há uma nítida divisão de "aldeias" e "tribos" que eu nunca vi se juntarem. Infelizmente. E isso é alarmante aqui. Chega a ser horrorizante o nível de separação entre os diversos âmbitos da vida de uma pessoa. 

Também não me sinto inserida nesse "conjunto de aldeias". Globalmente falando. Eu tentei algumas vezes, mas foram frustradas. Submeti-me a situações que, hoje em dia, não faria mais, tudo na tentativa de trazer para mim aquele(s) que parecia(m) querer conhecer meu mundo, mas não deu certo.

Conheci e conheço pessoas que adoraria fazer parte da vida delas, como alguém que realmente faz parte e não é apenas enfeite, mero conhecido ou mesmo mero complemento quando as demais pessoas não estiverem disponíveis. Acontece que as diferenças nos afastam. Sou de um mundo diverso do delas. E é óbvio que elas se identificam com pessoas da "sua tribo". E aqui, sim, pode-se falar em tristeza. Não é algo que eu fique feliz. Não é algo que eu queira. Queria exatamente o contrário. 

No entanto, tudo isso é apenas mais um motivo que justifica o fato de eu ser só. Há muitos outros. De ordem subjetiva, inclusive. Incompatibilidades de vida, de visão, de cultura, de mundos. Tudo inserido em diversos âmbitos que consigo perceber. Tanto é que, mesmo rodeada de gente, ainda continuo só. Normalmente, continuo só, independente do quanto de gente tenha ao meu redor. 

E digo mais: se eu não quiser ser mais só, devo me adaptar a muitas coisas. E aí reside o "X" da questão: não consigo me adaptar. Não dá. Existem coisas que, simplesmente, não podem passar batidas como se fossem insignificantes. Contrariam o meu próprio senso e, por essa razão, é que muitas vezes prefiro ficar calada, quieta, no meu mundo particular, principalmente quando estou prestes a "ser violada" ou quando já sou violada na essência.

Acho que é o fato de ser só que tanto tem me distanciado das pessoas, até mesmo daquelas que eram queridas por mim. Eu tenho conseguido verdadeiras proezas no sentido de afastar as pessoas. Não que elas queiram vir até mim, talvez até queiram, mas não de modo definitivo ou como deveria ser. Antigamente, isso me daria uma grande tristeza. Hoje, dá apenas uma leve sensação de tristeza. 

Prefiro entender que é uma decorrência de ser sozinha, de estar em um mundo que nunca foi meu, um mundo que é todo repartido, absurdamente difícil de ser entendido, além de ser quase impossível se sentir inserido.   

Quer dizer, além de ser naturalmente sozinha, a própria realidade ajuda a confirmar isso. Custei a entender, a aprender, mas hoje digo com propriedade que ser só não é assim tão difícil e que, muitas vezes, pode ser a melhor solução, como de fato tem sido e há de ser, enquanto durar minha passagem nesse universo tão estranho. 
      






  

   



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