A música diz que "preciso sentir verdade no que você diz e faz". Preciso mesmo, porque são coisas totalmente diferentes. E talvez seja por isso que não costumo acreditar muito em algumas palavras. Nas suas palavras daquele tempo, especificamente. Dizer e fazer assumiram formas muito distantes para nós e são coisas que estão intimamente relacionadas, pois é na incongruência delas que surgem as falsas promessas e o poder de iludir alguém.
Embora eu quisesse acreditar que aquilo era verdadeiro, sabia que não era. Talvez meu pessimismo tenha sido meu escudo contra a ilusão. Sabia plenamente que existia algo por trás que eu também tinha conhecimento razoável. Algo velado e escondido que nem você mesmo soube disfarçar. Dava pra perceber, sabia? Infelizmente ou felizmente, eu sempre soube.
Fingimos não saber. Fingimos não ter nada. Fingimos que era pra ser, quando não era. E fingir é um bom método para levar adiante algo que nem devia ter começado ou um ótimo método de ser cego propositalmente. Não víamos porque não queríamos ver. Porque, se víssemos, tudo cairia, não continuaria. E, apesar de tudo, era bom continuar.
Dizíamos coisas sem senti-las. Eu confesso que era verdadeira demais e realmente sentia o que dizia, mas não recebia muito a sua verdade. Questiono se existe algo mais injusto do que isso. Ser verdadeiro, acreditar minimamente e saber que o outro lado da moeda não corresponde com a mesma verdade e que nem está disposto a ser plenamente verdadeiro. Pra você, ela existia até determinado ponto (até onde seu interesse particular permitia) e, às vezes, fazia questão de deixar claro de alguma maneira que tudo aquilo que tínhamos não era nada do que eu estava pensando. Foi como se, efetivamente, apenas o meu lado pudesse ser alimentado. Apenas o meu lado pudesse cometer algum erro, porque você sabia perfeitamente o que estava fazendo e eu talvez não tivesse tanta consciência a ponto de precisar esclarecer (mas eu tinha!). Parecíamos duas peças de xadrez, brincando no tabuleiro, mas eu não estava jogando, tampouco era peça na sua mão, mas a realidade funcionou assim.
Você até fazia questão de deixar claras as coisas. É até coerente. Correto. Dizia, com outras palavras, que nossa relação era bem menor. Quase nada. Talvez até ilusão. Faltou dizer apenas o principal: que tudo aquilo era mentira. E verdade fingida é bem próximo da mentira, se não for ela própria. Não dá pra fingir verdade. Ou é, ou não é. Mas, eu sempre soube disso. Não precisava dizer. Eu sabia.
E quando te encontro, de algum modo, não sinto mais confiança que um dia, minimamente, consegui depositar. Era muito bom te ter na minha vida por mais ínfima que fosse sua presença, até porque não fazia questão de muito. O pouco que você queria era tudo que eu estava disposta a dar, mas eu não ia te dar apenas o pouco pedido. Eu te daria tudo que tenho, posso e consigo dar, mas no fim das contas ficou armazenado comigo. Você não queria nada disso. Que mais posso fazer a não ser guardar?
Sabe, é injusto pedir sem desejar. Pedir algo querendo outro. Mexer com aquilo que não pretende ter na vida. E pior: querer apenas por interesse próprio e depois esquecer como se nada tivesse existido. Querer até onde for favorável e descartar como um copo de plástico após a bebida do suco. É fácil agir assim. Difícil mesmo é conseguir olhar nos olhos depois, mas talvez não seja assim tão difícil, não é? Depois que a gente consegue o que realmente queria, fica fácil ignorar as demais, porque não eram importantes. Nunca foram.
Eu me pergunto: Será que eu signifiquei alguma coisa pra você além de uma alternativa para satisfação dos seus desejos momentâneos, desesperados e extremamente imaturos? Não sei. Acho que não. E só você me provaria o contrário, ou seja, nunca.
Esses dias, eu sonhei com você. Não queria assumir, mas preciso dizer que acordei bem feliz e ao mesmo tempo não muito feliz, porque no sonho aconteceu o que deveria ter acontecido quando nos cruzamos. Pelo menos no sonho, aconteceu. Mas, a realidade é mesmo bem mais dura.
Quando dormi, você era outra pessoa. E eu agia um pouco parecido com você, quer dizer, bem menos calorosa. Você me chamava para conversar, queria ficar perto, queria conversar. Todos percebiam. Era uma boa sensação, porque no fundo, apesar da minha indiferença no momento do sonho, eu queria exatamente isso: ficar com você. Assim, de verdade mesmo. Tudo que não aconteceu quando te conheci. Talvez você até me quisesse. Não mais que uma noite de jantar. Não mais que uma noite de conversas e talvez até beijos como forma de distração. Pena que não gosto desse tipo de coisa.
Foi um sonho que, se pudesse, eu transformaria em realidade e te mostraria como é bem melhor agir com verdade, transparência e, principalmente, como é bom desejar, querer, independente de qualquer coisa. Eu poderia te dar tudo que tinha para dar, mas se não queria, por que pediu? Se tinha outra fonte, por que buscar outra? Não seria muito egoísmo? Eu acho que sim!
E agora estou aqui. Desde aquele tempo, nunca consegui parar totalmente de pensar em você, em nós e no que não deveria ter existido sob nenhuma hipótese. Não consigo admitir e aceitar. Golpe baixo, diriam alguns. Eu diria apenas que foi um ato de egoísmo. De buscar a satisfação própria sem pensar no outro, nos efeitos que causariam nele. Você não pensou, não pensa e nunca vai pensar em mim. Eu sei. Por isso mesmo nem devia estar aqui falando sobre você, quando poderia e deveria estar falando de qualquer outro ou qualquer outra coisa da vida. Mas decidi falar de você, porque nunca consegui digerir e sempre que te encontro tudo vem à tona e parece que foi ontem que tudo aconteceu.
De tudo isso, só quero te dizer uma coisa: da próxima vez que quiser algo de alguém, reflita se quer isso mesmo desse alguém. Se não quiser, não tente. Não insiste. Não mexe. Não podemos ter tudo que queremos por capricho ou por mera vontade. E, às vezes, o que você deixa na vida de alguém pode até não ser tão negativo, mas certamente não é o melhor que você poderia dar caso não tivesse feito nada.
Não posso dizer que você me magoou no sentido ferrenho da palavra. Eu sabia das suas finalidades, intenções e desejos. Não mais me culpo por me deixar envolver. O único sentimento que fica em mim é o de que conheci alguém que poderia ser tudo e, simplesmente, decidiu mostrar o mínimo que tinha e de uma forma pouco honesta até consigo mesmo. Mas, eu sei que você não é assim. É muito mais do que pude conhecer e ver. Não sei se conhecerei seus outros lados, acho que não, mas espero que você deixe apenas estes lados transparecerem. Eles, certamente, são mais bonitos. E você fica bem mais bonito quando é DE VERDADE. Quando é verdadeiro consigo mesmo e com os outros.
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